@marreco.arts

MINHA MÚSICA, MINHA VIDA #4 - INDIC BLUE AO VIVO SOMA LAB

Quem é artista sabe que na maioria dos casos há uma relação de não gostarmos, ou não ligarmos muito, sobre alguma produção nossa. Seja um vídeo editado, um quadro rabiscado, uma música gravada, um clipe feito; haverão sempre detalhes mesquinhos, muitas vezes ridiculamente minuciosos os quais nós artista manteremos implicância pro resto da vida. Há perfeccionismo em demasia da nossa parte? Pode ser que sim, pois para quem está de fora de todo o ciclo da produção que tal material envolve não irá sequer reparar na sua cisma em específico. No caso deste a quem vos fala, euzinho, posso garantir que já fui muito chato com isso e que já me decepcionei demais por besteira minuciosa que teve tanto na produção quanto nos resultados finais. 

Com o passar dos anos em atividade, e consequentemente a experiência na vida e na profissão, aprendi a dar valor ao momento e à subjetividade. Essa, tanto vale pra mim e minha consciência quanto para os meus companheiros ao redor, seja onde estivermos. Um dos resultados mais interessantes vindos dessa consciência ativa foi a libertação das expectativas. Não é algo fácil de conseguir, assim como nunca haverá um nível em que conseguiremos atingi-la por completo, o que nos caracteriza em essência como humanos dignos de imperfeição. Compreendamos essa como uma expectativa justa o suficiente pra não te fazer mal depois. Como consequência, o valor ao momento torna-se poderoso. Muito mais quando suas humanamente mínimas expectativas são surpreendidas.

Foi o que aconteceu comigo e meus companheiros quando no inverno de 2019 fomos nos apresentar no estúdio Soma-Lab, em Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio de Janeiro. Nessa incrível casa com um estúdio bem equipado numa das salas, tocaram inúmeras bandas excelentes de todo o Brasil, em que antes de todas as apresentações, os responsáveis pela casa, Nareba e Sueco, gravam dois clipes ao vivo como cortesia da casa - isso fora o cachê que a banda também recebe, coisa raríssima no underground brasileiro. Enquanto a banda fica no estúdio passando o som e, em seguida, gravando o vídeo, as pessoas vão chegando e ocupando o lindo quintal que ali havia - Sim, havia, pois após a pandemia, esse maravilhosa casa foi mais um dos lugares que infelizmente teve que entregar as chaves aos donos - e esquentando o clima para o show que ocorre logo em seguida. Após a gravação, e com tudo preparado para o show, uma curiosa voz de Google Translate informa a todos os presentes no quintal para entrarem no recinto. 

E todos entram. 

Que experiência mais divertida foi aquela! Tivemos praticamente uma noite de estrelas, na medida do possível brasileiro kkkk. A casa estava cheia de gente que eu nunca havia visto na vida, todos assistindo o Indic Blue tocando inspiradíssimo por pelo menos uma hora e meia de muita onda boa circulando. Um show repleto de improvisações instrumentais, além da mescla de covers inusitados dentro das nossas músicas. Tudo com muito instinto, sentimento, sem o script de shows maiores que são repetidos à exaustão por anos. É o que considero uma banda de verdade em ação. Gostaria de ter visto mais vídeos e fotos desse show que, por incrível que pareça, só vi um vídeozinho curto um ano depois. Entretanto, isso também simboliza que o pessoal estava com o foco diferente do comum, todo voltado pra tecnologia em posts egocêntricos. Talvez o clima pró legalize do local tenha favorecido esse distanciamento saudável. Consideremos que até nisso tivemos vitória. A vitória do tipo de "quem esteve lá pode ver". E acabou. Esse é o espírito da coisa que chamamos de rock que mexe tanto comigo e que eu e meus companheiros buscamos. Este, o Indic Blue consegue proporcioná-lo de inúmeras maneiras e em inúmeros lugares. Por isso, sempre irei recomendar que alguém vá assistir a uma apresentação. E quem me conhece sabe isso não é só por eu tocar no conjunto. Na minha opinião esse foi o Indic Blue na sua melhor forma desde quando eu entrei na banda em 2012. Eu, Ian, Marcos, Dower e Rafael: tem coisa mágica no ar sim, que não acontece em outros projetos em que faço parte. Obrigado, amigos!

Quanto a esses dois registros feitos pelo pessoal do Soma-Lab, o qual estou destacando aqui são muito queridos por mim, que os considero um dos melhores, se não o melhor, que eu estou envolvido. Como banda, só posso dizer que essa é uma performance que temos com muito orgulho, que tocamos inspirados, focados em fazer o melhor de nós em um take contínuo, 100% ao vivo. Repetimos umas duas ou três vezes cada música e pronto. Sem frescuras paramos, esperamos as pessoas entrarem e começamos o show. Me encheu os olhos ao ver o resultado, me lembrando as mais legítimas gravações dos grandes nomes da música, que gravavam suas canções todos juntos em um take, sem quaisquer overdubs. Me senti por um instante no patamar da Janis Joplin, dos Doors, Jimi Hendrix, Rolling Stones, entre tantíssimos outros grandes mestres desse período dos anos sessenta pra baixo, onde somente gravava quem realmente tinha a moral de tocar a vera. Mais uma vez digo: que orgulho de ter um material rico desses no meu currículo.    

Por enquanto o Soma-Lab não existe mais, porém a atividade em Campos com certeza não se acabará. Uma cidade de interior, bem distante das capitais, e que respira o espírito jovem que reside das suas universidades públicas. As excelentes memórias ficaram guardadas e esperemos que eles voltem à atividade assim que tudo for se normalizando. Eu acredito que os responsáveis Nareba e Sueco logo voltem com alguma empreitada foda novamente, estejam eles juntos ou separados. Que assim seja. A cultura agradece e muito.      

Abaixo seguem os vídeos de My Big Mistake e Countdown

Comentários

Postagens mais visitadas