Avenged Sevenfold: O grande problema em querer ser de tudo ao mesmo tempo
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Lá pra 2007, por volta dos meus 15 anos - tempo em que eu já me considerava um roqueirinho bem vivido em relação aos meus amigos de infância-, reparei que alguns deles estavam gostando de uma banda nova e que estava fazendo a cabeça deles como nunca antes. Eles pareciam ser bem fãs da parada e colocavam em seus nicks de msn e emails um tal de "a7x" ou "7fold". Achei que fosse vindo de algum dos jogos mmo/rpg, que eu odeio aos montes, e que a grande maioria deles era bem viciada. Só que não.
Ao ver na escola um moleque com a camisa preta com um desenho meio indecifrável no momento escrita Avenged Sevenfold eu juntei umas das poucas peças que tinha e entendi que era algo à mais que um jogo merda daqueles (vale lembrar que na época, e-sports era inexistente e qualquer coisa relacionada a isso era contra um futuro dos jovens, portanto, ainda caminhava pelas marginais e não tinham os merchandise de hoje em dia kkkk). Só assimilei a mensagem e não perguntei nada sobre. E posso me lembrar que logo um tempo depois, ao chegar em casa e ligar na Mtv, que já estava sendo arruinada com força pelo Youtube, que vi um clipe dessa banda da molecada "malvada" entre o top 10. A música se chamava Bat Country.
Tinham riffs de guitarra com os famosos intervalos sapecas das bandas de hardcore, batida pra cima com pedais duplos trigadões, uns solos possantes que beiravam ao exagero, corinhos do tipo Iron Maiden com música clássica, além de um visual um darkzão bem poluído, deles cobertos por tatuagens, maquiagem preta nos olhos e cabelos daqueles à moda emo. Naquele tempo, eu era um daqueles roqueiros anti emo, que dava umas ideias toscas de preconceito de estilo, mas que secretamente achava algumas bandas até interessantes (esse tema vale post próprio). Depois daquele momento ativei uma certa atenção praquele carnaval com a seguinte premissa: "esses emo tão melhorando ou estão só querendo enganar"? Mas vale lembrar que não era só as "emada" que haviam no conjunto, e sim, algum tipo de paródia de um Axl Rose do hardcore e um Slash-Nikki Sixx sem cartola, mas com um chapéu tão ridículo quanto - E desses aí eu era fã.
Nesse período, com essa música, somada àquela outra que tinha no jogo sensação do rock da molecada Guitar Hero, The Beast And The Harlot, me levaram a ponto de baixar o disco no emule. Ao escutar City of Evil, eu percebi um disco muito merda, extremamente chato de ouvir, muito poluído, que me lembrava quando eu estava no auge da punheta de guitarra, a achar que Cacophony era algo foda só porque o Marty Friedman e o Jason Becker eram tecnicamente os melhores no que faziam - e até hoje ninguém os barrou. Nem a música do jogo de vídeo game valia a pena de ser apreciada, pois era exageradamente longa em uma explosão de clichês, como refrãos repetidos demasiadamente, subidas de tom, sweeps e arpejos de guitarra aos mil. Só valia no game mesmo por ser desafiante pra jogar contra os amigos, e quem fez isso sabe o que estou dizendo. Entretanto, o que realmente valeu daquele álbum, na minha opinião, que considero até hoje, está em Bat Country e, principalmente, em Seize the Day. Essa é uma grande música em todos os aspectos e que me fez ver que ali havia uma banda que estava em construção de seu estilo próprio. Uma cartada certa tanto em termos de música quanto de comercial (suce$$o, ainda mais pra época, que rock ainda era algo legal pra galerinha). E isso normalmente é um caminho um pouco trabalhoso pra quando a mesma possui tantas referências de influência e que querem incluí-las no som. Um exemplo positivamente mestre nesse quesito está nos Faith No More. Estes, simplesmente geniais, que também passaram por caminho semelhante na carreira, e que durou bem pouco. Chamo isso de maturidade, mentalidade pra frente e coragem pra enfrentar a chatice de muita gente e ganhar o respeito da galera boa que ainda não os considerava grandes coisa. Por outro lado, só o que eu conseguia ver nos Avenged era um grupo que puxava uma parte do Metallica, outra do Iron Maiden, outra do Guns 'n Roses, outra do Pantera, entre tantos outros clássicos a mais, e juntava numas espécies de músicas, onde se somavam às imagens de gatinhos do rock, meio revoltados e com cara de esnobe. Felizmente, talvez, essa onda tosca já acabou, mas esse raciocínio já é pra outra ocasião.
Voltando à história: eu ainda eu não estava perto a me considerar um fã dos "A7X". Isso começou a acontecer quando no mesmo ano eles lançaram o então disco novo, autointitulado Avenged Sevenfold mesmo, que eu pude acompanhar o poderoso lançamento oficial na Mtv do clipe da música Afterlife. Aquele riff principal me deu uma ganhada, junto à mescla com o baterista cantando e à dramaticidade unida a um certo peso honesto comercialmente. O que me fez voltar ao clássico emule pra baixá-lo. Aí sim pude ouvir um som literalmente maior, mais organizado, com menos bronha de guitarras, refrãos mais bonitos e bateria de bom gosto. Dentro do estilo que eu já estava ligado que existia, o emo malvado/puto, tornaram-se uma banda que eu já não tinha mais vergonha de falar que achava legal. A culpa é desse disco, que o recomendaria pra qualquer moleque ou moleca que quer algo pra revolucionar sua cabeça, como por exemplo, a minha afilhada quando estiver seus 14 anos e entrar na famosa busca por algum tipo de identidade. É pra isso que bandas como Avenged Sevenfold se mostraram existir. Achava eu que poderiam ser algo mais, só que não rolou.
Entretanto, naquele tempo, jovialmente acabei criando uma espécie de expectativa de que eram uma banda potencial a serem "os novos grandes", uma vez que a galera velha aos poucos estava indo embora, sejam por aposentarem-se ou por morrerem mesmo. Sei que isso hoje não faz mais sentido algum, ainda mais quanto à essa banda aí. Eu conseguia imaginar um Avenged Sevenfold subindo de patamar disco após disco, valendo lembrar que ainda no caminho comercial, numa crescente em que eu poderia chamar de mainstream de som honesto. Seria legal se de fato tivesse acontecido.
Então, em 2009, aconteceu o baque do falecimento do baterista The Rev (esses apelidos toscamente horrorosos), o que foi uma grande pena de ter morrido uma pessoa talentosa, jovem, e de uma banda que eu considerava em ascensão. Fiquei normalmente triste pelo caso, porém, não no nível que o pessoal que era mais fã demostrava. Pareciam lamentar a perda de gente realmente boa e eu não compreendia tanto tamanho louvor à figura The Rev. É banda que toca, que segue em frente. E digo por mim mesmo que achei até mais animador saber ter a notícia de que o Mike Portnoy, que tinha saído do seu trono todo poderoso da banda dos Dream Theater, iria terminar as gravações do disco e tocar na tour com a banda. Aquela era uma novidade interessante, de poder vê-lo tocar com outra galera, uma vez que aquele pessoal Petrucci e cia. são um bando de caretões chatos pra caralho e ele sempre foi um pouco mais rock 'n roll. Pela primeira vez fiquei ansioso pelo resultado de algo vindo deles. Quando essa expectativa me bateu eu cheguei à conclusão: eu era um fã.
Nightmare saiu logo depois, em 2010. Mais uma capa tosca com aquele símbolo tosco roubado do Overkill (que pra esses eu já acho legal, e caracteriza o início da minha consciência tomando forma), mas começando bem interessante com a música tema. Somzão de bateria, afinal, era o Mike Portnoy, melhor do que o cara que morreu. As guitarras estavam no padrão do último disco, o que era ok. Haviam breakdowns divertidos de ouvir, além de umas brincadeiras dissonantes e todos aqueles clichês aplicados comercialmente com bom gosto em músicas honestamente bem amarradas. A galera cresceu mais uma vez.
Era minha tese tomando forma, o que me deixava orgulhoso. E que agora seria "fudeu" real, pois estavam com o Mike Portnoy, um excelente baterista, que estava puto por ter sido mandado embora dos Theater. Que então parecia estar querendo mostrar serviço, o que me fez imaginar que ele entraria estúdio com os moleque. Achava que ele seria um novo membro, mas não foi o caso. O barbudo só tocou parte da tour e depois meteu o pé. E eu, que achei que iria vê-los juntos quando fizeram o show aqui no Rio quebrei minha cara. Vi um outro moleque, era um filé de borboleta que mal aparecia atrás da bateria. O malandro era bom ao nível de contratado, executando as músicas até o fim e ponto. Jurava que ele meteria o pé após a tour. Só que, mais uma vez, errei. O cara ficou e gravou um disco novo. O tal Hail To The King. Aí a coisa fudeu real para o lado negativo.
Lançado em 2013, esse disco caracterizou uma mudança importante no som, que foram músicas mais cadenciadas, com uma bateria digna do mestre Phil Rudd, do ACDC, só que numa banda que era pra ter praticamente o inverso. Era uma punhetação de guitarra chatíssima, um plágio gritante detectado (em This Means War), músicas com uma mania de grandeza, junto à temas conceituais ridículos, que eram completamente um tiro pela culatra. Para escrever esse texto eu fui ouvir novamente depois de anos, pra constatar o que quero dizer - e talvez até me contradizer -, e mais uma vez nada mudou. É uma merda mesmo. Uma banda nível ok, de excelente potencial pra renovar os ares do rock pra molecada, que acabou mostrando ser tosca rebaixada aos níveis de artistas que seguiram pelo mesmo caminho como os Nickelback, Avril Lavigne, Katy Parry. O show no Rock in Rio 2013, que vi pela televisão só um pouquinho, foi a prova cabal daquela coisa horrorosa.
A decepção musical pra mim, atingiu um dos fatores determinantes da curtição que envolvia o Avenged Sevenfold, que era brincar de air drums quando sozinho. Eu posso dizer que aprendi a tocar bateria nessa fantasia assim tão semelhante e brilhante quanto a uma punheta, que até me rendia umas boas calorias perdidas. E essa banda de moleque estava na minha playlist junta com nada mais nada menos que Pantera, Metallica, Slayer e afins. Sim. O Avenged Sevenfold também era parte desses meus estudos "aprofundados" na arte de entender o sentimento de um batidão bem tocado. Com isso, esse novo álbum jogou tudo no lixo, me dando a verdadeira noção da falta que o falecido Reverendo fazia pro feeling que os envolvia. Enfim compreendi que aquele maluco era a força do bom senso, do bom gosto e do espírito caótico que envolve toda essa paixão pela música pesada. Aí sim eu comecei a lamentar a perda de The Rev, ou melhor dizendo, James Owen Sullivan.
Talvez toda essa revolta seja mesmo o delírio de um antigo fã enrustido que cresceu e percebeu que havia um monte de coisa errada naquela coisa. Mas sei que se esse baterista estivesse ainda em carne e osso entre nós, que não aceitaria o rumo tomado pelos amigos, além de possivelmente estar envolvido em outros projetos mais interessantes que o principal. Porém, isso é história pra outros multiversos.


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