@marreco.arts

OS GRANDES DISCOS DA MINHA VIDA #3

#3 - BACK IN BLACK (ACDC, 1980)


Quando eu estava no auge dos meus nove aninhos de idade, eu já era um fã de rock em alto volume, já habituado com algumas boas referências iniciais dos anos noventa (Offspring e Bad Religion, Red Hot Chili Peppers, principalmente), que se faziam muito presentes em grandes jogos de videogame da minha vida - um possível tema futuro a ser postado - como Tony Hawk's Pro Skater, Crazy Taxi. O rock já estava no seu processo de decadência midiática, mesmo que algumas bandas medianas atingiam as paradas da Mtv. Haviam por exemplo a Pitty, os Audioslave, os Linkin Park, Green Day, e etc. E eu estava iniciando nesse mundo, em busca do que eu queria ouvir: rock'nroll alto pra explodir os meus ouvidos. Num fim de tarde, me lembro de ter visto na TV um programa falando de uns discos e aí que apareceu ele, por pouquíssimo tempo, mas tido como algo super importante. Era o Back In Black, do ACDC. Aquela imagem do guitarrista se esperneando no chão como se estivesse possuído ou sendo eletrocutado não saiu da minha cabeça. Era esse o próximo disco que eu iria caçar, ou pedir de presente pra família kkkk. 

O ano era 2003, e eu havia começado recentemente as aulas de violão. Em três meses de aula eu fui presenteado pelos meus pais com uma guitarra Crafter Junior, que era tipo uma série especial pra molecada que vinha numa caixa acompanhada de um pequeno amplificador com som de abelha. Eu ficava tocando naquela guitarra até meus dedos não aguentarem mais, a noite chegava e meu pai me obrigava a usar o headphone todo empoeirado do antigo toca discos dele. Ficava na sala eu viajando nos sons e meus pais vendo jornal e novela. Nesse período de início na guitarra eu descobri na marra que tocando duas notas (o 1º e o 5º grau do acorde) o som saía com O PODER. Quando comentei isso com meu professor de guitarra ele tinha me dito o nome dessa técnica milenar maravilhosa: era o famoso powerchord, que caracteriza todo o rock. Tudo na minha vida fez sentido depois disso. Era como a descoberta da roda e o domínio do fogo pra humanidade. 

Em outubro eu havia terminado uma etapa importante para a minha família que era a catequese. Para eles, cristãos, de classe média e branca, era um período pra se comemorar. Eu detestava tudo aquilo:  ir pra igreja, ler a bíblia, ouvir sermão e ajoelhar pra estátuas superiores a mim nunca fizeram o menor sentido, além de dar um sono horrível. Mas eu fiz parte disso e aceitei fazer sem resistência, pacientemente, por um pedido muito carinhoso da minha mãe que é a pessoa que eu mais amo desse planeta. E foi nessa brecha comemorativa que eu pedi o meu disquinho dos ACDC. Eu o recebi das mãos da minha amada avó. Não sou religioso hoje e nunca fui nem antes, durante e depois da minha catequese. Eu só comunguei duas vezes na minha vida e nessas duas vezes por algum motivo desconhecido eu tive fortíssimas dores de cabeça. Pensando aqui comigo mesmo, se eu realmente ganhei alguma coisa com todo esse processo eu posso tranquilamente afirmar que ele se concretizou nesse disco, o Back In Black. Por isso, acho justo dizer que supostamente Deus me presenteou com uma das melhores obras de Satã. 👿  

Logo que ganhei o meu disquinho eu fui direto para o discman ouvir o que me era tão foda assim que eles disseram na TV. Enquanto folheava as páginas do encarte, cheio das fotos do Angus Young todo destruído fisicamente, sem camisa, em êxtase tocando sua guitarra também toda destruída, o disco começou a tocar nos meus ouvidos o sino que mudou a minha vida por completo. Era Hells Bells. Que contradição! Eu realmente nunca havia ouvido nada igual aquilo. Era orgânico, cru, bruto, mas feito com maestria que só poucos conseguem. O som das guitarras dava pra sentir o calor no ar, mesmo no começo manso da canção. Uma experiência a qual eu jamais esquecerei, que se seguiu para as outras músicas, Shoot to Thrill, What Do You Do For Money, até chegar nas incríveis Back In Black e You Shook Me All Night Long. Essas duas daí literalmente me tiraram da sala de casa, me colocando num plano astral onde eu voltava ao tempo e me via no meio da banda, os  assistindo, só me fazendo voltar à realidade quando de forma magistral terminaram. Era um masterpiece que eu tinha em minhas mãos e até hoje o tenho, todo velho, mas guardado com muito amor no meu quarto de Cabo Frio. 

Nesse tempo, eu dissequei cada música junto ao meu velho aparelho de som. Durante as tardes, ao chegar da escola, eu fazia o ritual após o almoço de ligar o disco junto ao meu amplificador e tocar minha guitarra. Foi um novo nível que eu atingi durante o meu aprendizado, que foi tirar as musicas de ouvido e tocá-las com a boa imaginação que sempre tive. Era eu dividindo as guitarras bases da banda com o Malcom Young enquanto o brother Angus arrebentava nos solos - Emoção sem igual que iniciou a chama de formar um grupo com pessoas do mesmo gosto para fazermos som e falar merda -. Obviamente eu não estava ainda tecnicamente capacitado de tocar solo algum do mestre, e também jamais estaria por desonrar cada nota tocada por ele. Hoje, como músico formado ainda compartilho desse sentimento de respeito. Mesmo sabendo tocar alguns solos nas rodas entre amigos, quando é junto com o ACDC eu abaixo a cabeça pro garoto me mostrar como se faz. Ah, e além disso, simbolizou também um novo nível para minha família - e vizinhos também -, pois eu deixei de lado os headphones para tocar integralmente em puro alto volume, fazendo-os demostrar cada vez mais o seu amor por mim. Até porque rock'nroll se toca alto, Ain't Noise Pollution*.

Obrigado, jovens Angus e Malcom Young (RIP), Phil Rudd, Brian Johnson e Cliff Williams por tantos aprendizados sobre música, atitude e bom gosto. Infelizmente eu nunca fui em nenhum show deles e provavelmente não os verei juntos para tocar ACDC nunca mais, e quando digo isso eu incluo até a parceria nota 10 que aconteceu com o Axl Rose nos vocais. São coisas da idade, da vida e de tudo mais. Tá tudo bem, eu entendo e aceito.  





   
*No futuro eu descobri que rock'nroll também é puro noise pollution e que isso era maravilhoso. Mas todos sabemos que isso não é pra qualquer um. É uma camada mais profunda para aqueles que realmente amam a coisa. 




Comentários

Postagens mais visitadas