@marreco.arts

OS GRANDES DISCOS DA MINHA VIDA #2


 MACHINE HEAD (Deep Purple, 1972)






Na época em que fui introduzido até tamanha obra, meados dos anos 00, eu já era um guitarrista de quarto, a perturbar meus pais e a vizinhança com o meu Meteoro Atomic Drive*, a puxar inquietamente o belo riff de Smoke On The Water tirado de uma versão ao vivo num CD compilado de alguns clássicos, distribuído nos postos de gasolina Esso. Até então eu não tinha o Deep Purple como uma banda pioneira no quesito Rock Pauleira. Eu achava que eles viviam somente de Smoke On The Water e mais alguma musica ali e outra acolá.

Até que quando, num belo dia, eu acabei por ouvir falar na Mtv de um certo disco do Deep Purple, um tal de "Machine Head". Intercalando lances de um vídeo super foda de uma música rápida, cheia de berros potentes, um cara de capuz de bruxo e um bigodudo fazendo um teclado gritar como eu nunca tinha ouvido antes na história da minha vidinha. A música era Highway Star e eu jamais vou esquecer da sensação de luz que surgiu no meu âmago - eu a busco eternamente na abstração das mais variadas expressões artísticas. 





Nós ainda comprávamos discos - melhor dizendo: CD's. Nas minhas idas ao shopping em família quando pirralho eu sempre ganhava algum mimo. Não sei se era por ser filho único, sobrinho único e neto único, ou por aguentar pacientemente a maratona de bundear pelas inúmeras lojas daquele paraíso do capital. E eu aproveitava esses momentos para suprir meu vício em Rock, e acabou que encontrei numa Lojas Americanas da vida um único exemplar do "Machine Head", do Deep Purple. Era isso que eu ia ganhar de presente. E foram comprados na bagatela de 10 reais.

Guardei o disco com todo o carinho e preparei o ritual para ouvi-lo no meu discman, na hora de todos dormirem. Eu não imaginava o que estaria para vir. Na primeira audição eu me deparei com um som muuuito melhor do que eu imaginava que teria nos meus ouvidos. Que gravação. Bati cabeça do início ao fim do play na madrugada solitária. 

Me surpreendi principalmente ao saber que a Highway Star do vídeo acima era uma baita merda quando comparada com a do disco. E nos solos? O que falar deles? Só afirmo o seguinte: eu realmente confundi o teclado de John Lord no solo, achando que era o de guitarra. Outro grande destaque que arrepiou até a espinha foi a introdução de Lazy, cujos teclados passeiam pelos ouvidos com majestoso timbre distorcido. Aquelas façanhas todas me deixaram literalmente boquiaberto na penumbra do meu quarto, a querer mandar um gritão de euforia. Desde então John Lord é um dos meus heróis-mór, não só na música quanto na vida. Que humano!   

Pra cada música eu tinha uma catarse diferente dentro do meu cérebro. Era um riff, uma levada, um bend, um bumbo ali, uma rufada das caixas, um cantar de tal maneira. A magia deste trabalho ganha uma vida do tamanho de um Mega Zorde da primeira temporada dos Rangers. É uma das cozinhas mais fuderosas da história da música. Que entrosamento! O maior exemplo disso a gente escuta nitidamente no início de Smoke On The Water. Como a música começa: chamando na guitarra, depois preenchida a pressão com os teclados Hammond, a bateria puxa a levada suingada e, por fim o gravão dos baixos preenchendo qualquer vazio existente. E a vida se cria, na mais pura essência do ato de fazer um som com a galera.  

Foi só depois de muita garimpagem da banda, que fui descobrindo que cada uma daquelas músicas foi composta vindas de improvisos feitos nos shows da época, e que até muitas vezes foram feitos na própria gravação, feita ao vivo como o bom Rock pede. 

Por fim, as palavras que coloquei sobre esse trabalho nesse texto aqui são pouquíssimas para representá-lo e não cabem nem um pouco na grandeza em espírito que o mesmo toma em cada vez que é tocado. Depois disso, mesmo se o Deep Purple fosse uma banda de um disco só eles estariam no topo das minhas bandas favoritas. Felizmente, no meio desse, encontram-se outros tantos trabalhos dignos das mais profundas análises e homenagens. Se depender de mim, eu sempre as estarei fazendo. 



Obrigado, Deep Purple



Continua no próximo post...

Danilo Perrote


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*Amplificador que marcou época na geração de guitarristas do final dos anos 90 e início dos 2000. Quem conhece sabe do potencial que ele tinha e da enorme resistência a qualquer circunstância de tempo e de modo. Com ele havia também o acompanhamento da maravilhosa multi efeitos Zoom505, melhor conhecida como Zoombido. Esse foi o melhor som do mundo até ouvir um Marshall de perto. Bons tempos de baixos padrões e enormes proporções. Vale um post só pra essa dupla dinâmica.  

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